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Xícara de café

Xícara de café

Autores - Domingo, 13 de Maio de 2018 - Por: Gisela d'Arruda

Gisela d'Arruda é autora do livro Umbanda Gira. Também escreve contos. Nesse Xícara de café, que escolhemos para publicar no 13 de maio, faz uma reflexão sobre uma das muitas formas de resistência dos escravizados contra o regime de escravidão.

Bem, a xicrinha de café eu a imagino branca mesmo, com vagos arabescos floridos e um tanto desbotados pelo esfregar das mãos das escravas, porque essa é uma história daquele tempo. Toda branca por dentro, a não ser um leve encardido, sem enfeite, e na hora em que foi trazida, cheia de café sem açúcar. Branca, ou quase, a louça, preto, o café.

E quem trouxe o café foi uma das mucamas, e o senhor para quem ela trouxe estava, assim nos contam, de pé à porta vendo o tempo passar, ou aproveitando a brisa se nesse dia houvesse, o que não creio, lá faz é muito calor; ou supervisionando o crescimento ou a míngua de seus bens.

E não lembro se o pormenor me contaram ou se o imagino, mas vejo a xícara – vazia, e veremos por quê – deixada perto da soleira da porta, direitinha dentro do seu pires. Sem colherinha já que era sem açúcar.

E essa foi a última coisa que se soube do senhor. Recebeu o café na soleira da casa-grande, de fazenda ou engenho mais para o pequeno, já que estava na soleira e não no alto de uma escada: sugestão de casa nada grandiosa. A xícara ficou por lá e ele desapareceu, deixando poucas saudades. Isso interponho-o eu. Tinha fama de senhor cruel, e pessoas perversas raramente dão bons maridos ou pais. Se é que havia bons maridos e pais por ali.

Mas acontece que um determinado escravo também sumira. Um que fora castigado com brutalidade tempos antes. Bem, com isso já se delineia a razão do sumiço de ambos e a motivação de um.

Nada além disso.

Precisamos apelar para a imaginação, sem tergiversar, e por que não para os tradicionais marcadores romanos do raciocínio dedutivo, quod, quis, cur et alii.

Esses dois aliás já foram: sumiu o senhor do engenho, sumiu também um escravo recentemente castigado; e cur, porque um mandara castigar o outro e este outro não era idiota nem nada para voltar após devidamente sumir com o seu senhor. E o primeiríssimo da lista já o dissemos, respondendo antes que nos fosse perguntado: quod, o sumiço aparentemente simultâneo de dois homens que se detestavam. Um dos quais sequer tinha o outro por homem; mero bem.

Mas quomodo por exemplo, quomodo? Aí é que está o decantado busílis.

Como arrasta um homem a outro homem, presumivelmente melhor nutrido e com certeza resistindo à força que o arrasta? Nada ficou para a posteridade das condições físicas do senhor de engenho. Se era idoso, debilitado por sífilis ou hemorroidas ou tísica; se pujava na força dos quarenta anos ou tremia de febre terçã. Se era gordo ou magro, se comia tudo que lhe vinha à mesa ou só podia engolir caldos. Das condições físicas do escravo podemos sim intuir alguma coisinha, não muito, mas algo. Tudo mera suposição, nada demonstrável. Ainda sofreria com alguma cicatriz ou machucadura, e idoso não seria. Escravos idosos existiram muitos, mas em fazendas onde fossem tratados com o mínimo de condições para atingir a idade das cãs.

Não suponhamos que por ser idoso escaparia aos castigos físicos; tal suposição não se sustentaria dado o perfil ainda que borrado que o senhor deixou para trás; mas sim que idoso e castigado ainda por cima, lhe seria mais difícil ainda reunir a força necessária ao seu empreendimento. Meras suposições. Podia ser idoso, castigado recentemente, e hercúleo. E em todo caso, determinado e cheio de raiva.

Sim, porque no quesito quomodo podemos descartar de cara que se foram juntos caçar preás e a onça os engoliu, ou viver no fundo da caatinga uma paixão homoafetiva. Não houve nada disso. Um sumiu com o outro, que resistiu em vão, ou não conseguiu resistir. E o ativo neste sumiço foi o escravo.

Mas como foi possível? Talvez tenha havido uma pancada violenta, na nuca ou no meio da testa. Algum porrete, alguma pedra, esta mais fácil de se dissimular na mão que suponho grande, larga.

Mas o fazendeiro não elevaria a voz, furioso, ao ver a aproximação do seu escravo onde ninguém o chamara? Não começaria por bradar pelo feitor? Como? Aproximou-se por detrás? Isto seria deixar demais ao acaso. Quem decidiu acabar com outro em condições arriscadas não aposta a própria vida na eventualidade de um oportuno girar de cabeça. Ah, mas pode ter sido atraído, o fazendeiro, para fora, para longe da soleira da casa-grande, devido a alguma anomalia a investigar. Uma hipótese.

Ou talvez a xicrinha tenha algo a nos dizer.

Um dos nomes da guiné, Pithiveria alliacea, é amansa-senhor. Pouco se usa hoje, digo o nome, mas se usou muito nas cozinhas das fazendas e mansões, a erva e o nome. A folha decerto era preservada, para banhos e defumações como ainda hoje se usa; o que amansava o senhor era a raiz, com nítido gosto de alho, como já entrega o latim do nome oficial. E portanto, miscível nos temperos de ir à mesa e que os escravos-de-casa evitavam provar. Porque raiz de guiné não é que deixe a pessoa sorridente e de bom humor, provoca sonolência e aos poucos desacelera o coração e facilita enfartos.

Talvez os restos de café na xicrinha contivessem, revelassem traços de raiz de guiné em dose mais forte do que o habitual; porque não se tratava mais de ir desatando os nós que prendiam à vida os comensais mais suscetíveis ao veneno, aos poucos, sem levantar suspeitas. E sim de fulminar silenciosamente um inimigo pelo menos ao ponto de permitir que fosse carregado dali. Da soleira de sua porta de casa-grande mais para pequena.

Hipótese segunda.

Quanto à xícara, o cur da xícara estar na soleira,  penso que despachamos o cur depressa demais. Se o senhor deixou a sombra da sua porta para ver o que acontecia logo adiante, teve tempo de terminar o cafezinho e deixar a louça ali do lado. Senão não iam encontrar a xícara e o pires onde ele os recebera e sim largados pelo chão. Talvez pisoteados, partidos. E sua posição já indicaria ao que viesse investigar um princípio de direção tomada. E não vejo um nordestino dono de engenho, cioso de sua virilidade e também cruel, saindo para averiguações de xicrinha florida na mão. Não condiz. Já se foi vítima inicialmente de dose de sonífero vegetal, pode ter tido tempo de pousar xícara e pires no chão, sentindo desejo de fechar os olhos um instante, de se recostar no batente.

Ou o agressor que em ambas hipóteses se aproximava, saía de sua tocaia e vinha beirando o perímetro da casa, ou traçava diagonal ligando a moita ou mourão onde antes espreitava à soleira, simplesmente teve a oportunidade de colher das mãos do outro a louça antes que se desfizesse em cacos no chão e alertasse a sinhá, ou a sinhazinha, ou a escrava que se deitava com o senhor e de quem a sinhá tinha ódio e se sabia condenada sem a presença dele; ou todas essas criaturas juntas. Mulher tem ouvido para louça quebrada. Seria uma sorte a mais para o matador de coronel. E outra: não existiam, e menos naqueles sertões, meios de analisar sobejos de café nem colher impressões.

E em ambos casos, ambas hipóteses, a do amansa-senhor e a do barulho suspeito, precisamos recorrer, com a xicrinha vazia firmemente assentada na soleira onde já não está quem a esvaziou, a mais um dos marcadores da listinha. Quibus auxiliis?

Sim, porque nada disso se sustenta sem o auxílio de vários. No caso da guiné, a óbvia ajuda da cozinheira ou mucama que iria carregar na dose; no caso dos passos dados em direção a algum barulho ou movimento a ser investigado ou reprimido, a ajuda de pelo menos uma pessoa. Talvez duas. Nada amedrontador ou escandaloso, ou chamaria pelo feitor. Algo que ele considerasse poder resolver sozinho. Algo talvez tão ridículo e inofensivo quanto um pano, um chapéu, uma máscara, agitado na ponta de uma vara. Ou então se fosse de escandalizar teria de envolver brancos e não escravos, situação em que não se chamaria o feitor por natural pejo. As cumplicidades teriam dado um passo gigantesco, e quem sabe até deram.

Houve provável auxílio, também, na hora de levar o corpo para longe e o mais rápido possível. Ainda que desacordado, um homem deixa marcas pelo chão se o arrastam, os sapatos riscam a terra, ou se perdem. E é sistema lento. Dois homens suspendem e carregam limpamente o terceiro. O que anda de costas tem a vantagem de poder fiscalizar se algum objeto cai ou se alguém vem de lá.

Por que este provável segundo homem não fugiu também? Cur? Por que não fugiram todos quando se viram sem senhor? Vamos por partes. Certamente existiam herdeiros na casa-grande, dispostos a se valer dos bens semoventes e inanimados que o senhor deixara; mandariam encontrar os fujões. A Abolição não estava longe mas demoraria a chegar plenamente àquelas plagas e não havia, como na Capital, quilombos acoitados por abolicionistas famosos, até na família real. Quilombos nordestinos naturalmente houve, o mais famoso deles inclusive, porém cada criatura ou grupo de criaturas pesa e repesa prós e contras ao tomar suas decisões e o que pesou não se sabe mas se imagina.

Não era uma única pessoa, o senhor desaparecido, que os mantinha lá, e sim o conjunto das instituições, a polícia, capitães do mato, cães de fila, feitor. Mas se outra pessoa ajudou a transportar a vítima como se explica que tenha ficado? Ora, pesou também os seus prós e os seus contras. Mulher grávida, filhos noutras fazendas, alforria quase comprada ou conquistada, faltando poucos meses, ou pouca pataca. Teria mais a perder fugindo do que ficando e podemos ter certeza que se este ajudante existiu, como tudo nos indica, o seu perfil foi previamente analisado pelo escravo que sumiu. Perfil talvez debatido por todos ou vários, os de confiança, à noite na senzala. Aquele que ajudaria devia ser o que menos levantaria suspeitas.

E a pergunta que não quer calar, ubi?

Não onde se deu, onde começou o fato. Isto é sabido. A soleira da porta da casa-grande nem tão grande assim. Na verdade começou antes, no tronco recente, no porto onde chegou o escravo ou o pai dele, na captura em terras d´África por desafetos locais ou inimigos étnicos que o venderam com tantos outros aos barbudos brancos de roupas suadas e malcheirosas, na viagem extenuante que teve de fazer do porto até o engenho.

Isto é sabido.

Não se sabe é onde, ubi, foram dar com o corpo. Não, a onça não engoliu dois homens sem deixar vestígio, um desacordado ou morto e o outro inteiro. A polícia procurou.  E o Curupira prefere as matas aos sertões. Ubi, meu Deus, ubi?

Creio, temos de crer, que a coisa foi muito bem planejada dias antes. Dias, ou semanas. Tinha de haver um sumidouro natural ou fabricado, se natural fundo o bastante para o corpo não se poder resgatar, de preferência nem se avistar, durante as batidas que organizaram. Nem cheirar. Os urubus, os insetos dariam cabo de tudo em pouco tempo. Mas haveria um período sensível. Dariam jeito um rio fundo, um precipício; pouco sabemos da localização exata do engenho.

Se o sumidouro fosse fabricado, uma cova, teria de ser um portento de cova. Longe da fazenda para que as buscas não detectassem o montículo suspeito e a terra revolvida. Uma cova vertical, mais discreta, onde o corpo coubesse de cabeça para baixo, mais fácil de se atirar para dentro do que deitado, não é fácil de cavar.
Largar o corpo no alto de uma árvore alta, lembrando certos funerais do Oriente, para que as aves o devorassem: difícil e arriscado. Talvez um crime da mala sem mala, o corpo cortado em pedaços, aí sim cômodo de desaparecer.

É a solução que considero, assim sem ter clara a topografia local, de longe a mais viável. Bem, este seria o ubi para o corpo. E onde foi parar o escravo? Se tivesse sido encontrado a tradição oral o diria, com pena ou com triunfo. Nunca mais ninguém viu. Ninguém da fazenda. Ou ninguém que o dissesse. Já estamos qualificando muito esse “ninguém”.

O escravo, sozinho e matreiro, chamaria menos atenção do que a senzala inteira fugindo. Deve ter se escondido uns tempos, encolhido na caatinga. Amistou-se com alguns carajás, alguns guajajaras, ou foi por eles morto. Àquela altura todos os indígenas do sertão já tinham visto negros, ou ouvido falar. Não se sabe por quanto tempo sobreviveu, nem como. Mas tacape ou flechada eram preferíveis ao tronco do senhor.

Acaba em brumas, em névoa seca este relato. Nem os nomes ficaram. Contornos se esfumam, matizes se esbatem. Cores claras vão logo encardir, cor escura desbota, como na xícara de café que ficou para trás. Na violência do estupro; na dor imensa do parto fomos sendo feitos, mestiços.

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