Pallas lança dois ensaios de Léonora Miano no Brasil
Autora camaronesa ilumina os impasses contemporâneos ao propor
uma utopia afropeia e ao desconstruir a branquitude como sistema de poder

Reconhecida como uma das maiores vozes da literatura francófona, a escritora camaronesa Léonora Miano virá ao Brasil para lançar, pela Pallas Editora, as obras inéditas em português: Afropea – Utopia pós-ocidental e pós-racista e O oposto da branquitude – reflexões sobre o problema branco. São dois títulos que se complementam, entre a imaginação de futuros possíveis e a crítica contundente de estruturas de dominação.
“Uma das mais importantes intelectuais contemporâneas a refletir sobre as questões decorrentes da diáspora africana e seus desdobramentos contemporâneos nos países africanos e europeus, Léonora é uma pensadora que nos desconforta, nos provoca”, comenta a editora Cristina Fernandes Warth.
Miano vai falar sobre os novos livros e autografar exemplares entre setembro e outubro próximos. Tiradentes e Belo Horizonte estão na agenda de setembro, a partir do dia 16. Já Araxá, Salvador e São Paulo entram no calendário entre os dias 2 e 18 de outubro. Acompanhe os eventos de lançamento no: www.instagram.com/pallaseditora
Afropea – utopia pós-ocidental e pós-racista

Publicado originalmente em 2020 pela editora francesa Grasset and Fasquelle, Afropea propõe uma reflexão profunda sobre a condição dos descendentes de africanos subsaarianos que nasceram ou cresceram na Europa. A autora questiona o uso do termo “afropeu”, muitas vezes atribuído a essas populações, para problematizar o pertencimento em sociedades que ainda resistem a acolhê-los como parte de sua identidade nacional.
Léonora Miano sugere que o caminho para além do racismo estrutural passa pela criação de uma “Afropea”: um espaço simbólico em que a categoria de raça, forjada no Ocidente do século XV com o objetivo de hierarquizar e inferiorizar, seria superada. Ou seja, uma utopia política e cultural que reimagina tanto a africanidade quanto a cidadania europeia.
Ao longo do ensaio, a autora denuncia como elementos culturais da negritude (penteados, vestimentas e expressões artísticas, por exemplo) são desvalorizados quando manifestados por pessoas negras e celebrados quando apropriados por pessoas brancas. Também enfrenta o medo dos franceses em relação aos imigrantes contemporâneos, expondo contradições sociais e culturais que atravessam a França e a Europa de hoje.
Com uma escrita incisiva e pessoal, Miano entrelaça história, crítica cultural e memórias, mostrando que a experiência da diáspora africana no continente europeu não é homogênea e que sua reinvenção é parte essencial do futuro.
O oposto da branquitude – reflexões sobre o problema branco

Se em Afropea o foco recai sobre as identidades negras na Europa, em O oposto da branquitude (Éditions du Seuil, 2023) Miano desloca o olhar para a questão da supremacia branca. A autora examina como, desde o final do século 15, europeus ocidentais passaram a se autodefinir como “brancos” para se posicionar no lado oposto dos outros, criando um sistema de poder baseado na raça e na exclusão.
Neste ensaio, Léonora dialoga com pesquisadores e recorre a produções audiovisuais dos séculos XX e XXI para mostrar como o imaginário social se construiu em torno de estereótipos que ainda moldam comportamentos: homens negros eram retratados como violentos no sexo e as mulheres negra eram vistas como insaciáveis, enquanto os italianos posavam de mafiosos, por exemplo.
Mais do que denunciar os efeitos do racismo, a escritora propõe encarar o problema branco como questão central para compreender as desigualdades globais. Ela distingue “brancura”, culturalmente associada a valores positivos como pureza ou inocência, de “branquitude”, que designa um projeto político de dominação. Ao desnaturalizar essa categoria, Miano abre espaço para pensar outras formas de convivência e para desmontar privilégios historicamente acumulados.
Originalmente publicado em 2023, o livro chega ao Brasil em tradução de Carolina Selvatici. Assim como Afropea, contou com apoio do programa de fomento à tradução do governo francês, e se inscreve como uma leitura indispensável para o debate racial contemporâneo.
Umas linhas sobre Léonora Miano
Nascida em Douala, nos Camarões, em 1973, Léonora Miano vive na França desde 1991 e é autora de cerca de vinte livros publicados em diversos idiomas. Entre os prêmios que recebeu estão o Goncourt (2006), o Prix Femina e o Grand Prix du Roman Métis (2013). Em 2021, o seu nome foi consagrado no Prêmio Literário Frontières – Léonora Miano, dedicado a romances que abordam o tema das fronteiras, tão presentes em sua obra.
Léonora Miano já publicou pela Pallas Editora as obras Contornos do dia que vem vindo (2009), A estação das sombras (2013), Vermelha imperatriz e A outra língua das mulheres (ambos lançados juntos em 2024). No mesmo ano, saiu no Brasil o romance Stardust pela Editora Autêntica e a autora franco-camaronesa foi uma das estrelas da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.
Afropea – utopia pós-ocidental e pós-racista
Pallas Editora
Escrito por Léonora Miano
Traduzido por Andréia Manfrin
176 páginas
R$ 70
O oposto da branquitude – reflexões sobre o problema branco
Pallas Editora
Escrito por Léonora Miano
Traduzido por Carolina Selvatici
160 páginas
R$ 60
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