Pallas Editora lança livro autobiográfico de Maya Angelou que permaneceu inédito no Brasil por 40 anos

Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada, de 1986, é o quinto volume de memórias de uma das vozes mais poderosas da literatura afro-americana

A Pallas Editora lança no Brasil Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada (288 páginas, R$ 75,50) quinto livro de memórias da escritora, poeta e ativista americana Maya Angelou (1928–2014), uma das vozes mais celebradas da literatura afro-americana. Publicada originalmente há 40 anos, a obra de 1986 chega agora ao público brasileiro com tradução de Stephanie Borges, ampliando o acesso a um dos momentos mais marcantes da trajetória autobiográfica da autora.

No livro, Angelou revisita o período em que viveu em Gana, no início da década de 1960, quando muitos afro-americanos buscavam no continente africano uma reconexão com suas origens. O seu percurso, no entanto, foi atravessado por circunstâncias concretas: após viver no Cairo, no Egito, a autora seguiu para Acra, em Gana, para acompanhar o filho, Guy, então jovem estudante.

A intenção inicial era permanecer por pouco tempo antes de seguir sozinha para a Libéria, onde assumiria um trabalho institucional. Um grave acidente sofrido por Guy, porém, mudou os planos, obrigando Angelou a permanecer em Gana por mais tempo, a trabalhar para sustentar a si e ao filho convalescente e a estabelecer raízes temporárias no país — experiência que se tornaria o eixo narrativo do livro.

Ao longo da narrativa, Maya Angelou reflete sobre o que significa ser negra, americana, estrangeira e mãe, em uma jornada marcada por questões de identidade, memória e reconciliação com a própria história. A obra aprofunda ainda a metáfora dos sapatos, recorrente na cultura afro-americana e na diáspora africana, associada à ideia de liberdade, distinção social e possibilidade de caminhar. No título, a autora convoca o leitor a pensar nos “bons sapatos” como ferramentas necessárias para tomar a estrada e transformá-la em caminho.

Na apresentação da edição brasileira, Cidinha da Silva destaca como ela transforma a vivência do deslocamento em reflexão, oferecendo ao leitor um texto de grande densidade histórica e poética. “A autora nos convoca a pensar na qualidade dos sapatos como ferramenta para tomar uma estrada e fazer dela caminho. Reflitamos juntos: estradas cheias de lama, pedregulhos, cacos de vidro, substâncias derrapantes demandam tipos específicos e adequados de sapatos para que possamos construir uma trajetória sem sacrifícios, menos acidentada e mais confortável”, pontua Cidinha no texto.

Maya Angelou teve uma trajetória múltipla como cantora, dançarina, atriz, escritora, roteirista e diretora de teatro, cinema e televisão. Publicou livros infantis, poemas, ensaios e autobiografias, entre eles Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o seu livro de memórias mais conhecido, que foi levado aos palcos recentemente pela atriz Zezé Motta, aos 80 anos. Quinto volume da série autobiográfica, o livro é frequentemente destacado por sua força narrativa e profundidade reflexiva, podendo ser lido de forma independente.

Professora visitante em diversas universidades, foi nomeada, em 1982, a primeira ocupante da Cátedra Reynolds de Estudos Americanos da Wake Forest University, onde lecionou até sua morte, que em maio completa 12 anos. Toda a sua obra é atravessada pela luta contra o racismo e a violência sofrida por mulheres negras, transformando experiências pessoais em narrativas de resistência, superação e esperança.

Cidinha da Silva também chama atenção para a dimensão histórica singular da memória de Maya Angelou. Segundo a escritora, o livro registra episódios que o Ocidente só conhece porque foram vividos e narrados por ela — como a repercussão, em Acra, da morte de W.E.B. Du Bois, em 1963, interpretada à luz das cosmologias ganenses, e o encontro histórico entre Malcolm X e Muhammad Ali, em um momento decisivo da militância negra internacional.

Ao lado desses acontecimentos, Angelou revisita experiências de choque cultural, dor e deslocamento, como a visita às masmorras do tráfico escravista e o sentimento ambíguo de pertencimento vivido em Gana. Para Cidinha da Silva, a autora não vai à África em busca de uma origem idealizada, mas “tropeça” nela — e é desse encontro inesperado, feito de beleza, conflito e revelação, que nasce a força do livro.


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